Archive for Março, 2011

El Chorro

Foi na passada sexta feira que, já de noite, saímos do parque das nações com destino ao El Chorro – Málaga, perto de 6,30h de viagem pela frente era o que nos esperava, para trás ficavam as casas e algumas famílias duns impressionantes 67 escaladores que se fizeram deslocar a esta fantástica actividade organizada pelo CAAL. Chegamos perto das 6 da manhã e a noite não deixava que a vista alcançasse ainda as formas do vale pela nossa frente, o “embalse” já era visível, e por aí fizemos a travessia até ao Albergue Camping El Chorro, sítio onde há muito reservados nos esperavam os bungalows de madeira, no ponto mais alto do parque. No meu bungalow já me esperavam o Tiago Martins, a Helena e a dormir o Martim Vidigal, a Sara Pinto e a Paula Pacheco. Era hora de descansar, de manhã seria ás 9:30h a hora de encontro. Eram já 10:30h quando alguém decidiu que ía levantar-se…logo o movimento começou e “contagiou” todo o grupo…. para onde foi o CAAL?? Alguém tinha ficado para trás para avisar quais os sectores para onde tinham ido (Albercones e Los Cotos), decidimos que íamos ter com eles aos Cotos. Para isso teríamos duas hipóteses, atravessar a impressionante garganta pelo muito conhecido Camino del Rey ou através dos túneis, por onde passa o comboio, arriscando as famosas operações da Guardia Civil e a multa de €6000,00 para quem fosse apanhado.

O ínicio do Camino del Rey

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A escolha seria pois o El Caminito, até porque alguns de nós nunca lá tinham ido!! A via ferrata está equipada nesta parte do caminho, que é a mais conhecida e percorrida.

O início!

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Martim a desbundar o caminho!

Ao fundo vê-se uma pequena passagem, é uma das interrupções do túnel do comboio!

A vista do vale no fim do nosso troço do Caminho!

O caminho estava praticamente no final quando reparamos em três caminheiros lá bem em baixo a tentar passar o rio… um molhou os pés ao tentar saltar para uma rocha molhada e o outro agarrou um pau grande para tentar andar sobre ele de rocha para rocha, o que sem demora nos pôs logo a rir a gargalhada, de tão cómica que era a situação. Gargalhadas saudáveis mas que ignoravam por enquanto, que de seguida seríamos nós a ter de passar o mesmo rio! Descemos todo o vale em direcção ao sector que já se mostrava ao fundo, junto do túnel, apanhamos umas laranjas pelo caminho para comer depois e começamos a olhar o rio, tentando decidir qual seria o melhor sitio para atravessar! As meninas olhavam-nos da margem enquanto saltávamos de pedra em pedra procurando o trajecto perfeito, “não, por aqui não dá”, volta para trás “por aqui até dá mas aquela pedra ta molhada”, eu fui o primeiro a passar para o outro lado e a pousar a minha mochila em terreno seco, regressei atrás para um sítio onde as mochilas me iam sendo passadas de forma a agilizar e facilitar a passagem de todos. O Tiago pôs-se em cima de uma pedra e ia lançando mochilas para mim, a minha função basicamente era ir apanhando do outro lado. Eis que uma mochila que já tinha levantado voo, à ultima da hora decidiu prender-se ao casaco do Tiago, desequilibrando-o na direcção da água, como reacção, ele ainda tentou de um salto chegar a rocha onde eu estava, mas sem efeito, em menos de um segundo tínhamos uma mochila molhada, o Tiago com os pés dentro de água e eu e o Martim a rebolar a rir!!!

Ajudamos as meninas, com apontamento especial para o salto de fé da Helena, que não queria saltar de jeito nenhum (ler com sotaque brasileiro), mas logo logo, estávamos todos em segurança do outro lado!

as imagens falam por si

Todo este trajecto demorou-nos cerca de 3 horas a completar, ao longe nas placas já víamos o Jorge e o Carlos a testarem umas vias de clássica. Comemos umas sandes e fomos fazer umas vias para desmoer…

Já era tarde, o camino del rey e o rio tinham tomado grande parte do nosso dia, o sol estava a pôr-se por trás das montanhas e ainda teríamos de fazer tudo de volta. Ainda tive tempo de provar as laranjas que eram amargas como a p*** que as pariu, “deita fora que ninguém come isso” Mochilas ás costas, e siga regressar…todos pensávamos no caminho de regresso, atravessar o rio, camino del rey (que desta vez teria de ser feito de frontal), e quando chegássemos ao parque seria muito tarde. Quase gravado no nosso inconsciente…. todos sabíamos que não ía ser assim, iríamos desta vez arriscar passar os túneis do comboio e reduzir o nosso tempo de viagem drasticamente! Nos túneis, algumas preocupações nos assombravam, os comboios que por ali passam e pouco tempo e espaço deixam para nos encostarmos contra as paredes escuras e a outra, se a polícia estiver à nossa espera, vamos todos ter de correr para trás e se nos safarmos, atravessar o rio, passar o camino del rey, etc….you get the picture!! Assim nos vimos dentro dos túneis do Chorro a caminhar no escuro sobre as pedras da linha, não queríamos ser detectados pela Guardia Civil com os nossos frontais ligados, e assim fomos em silêncio caminhando até alguém dizer….. “vem lá o comboio…encostem-se a parede”, mesmo que não viesse eu já estava agachado e encostado sentindo os meus companheiros atrás de mim em pose semelhante aguardando a passagem lenta do comboio, que para quem está naquela situação mais parece que vai rápido (ora vejam… http://www.youtube.com/watch?v=WwXBubU4dUE). Estávamos quase no fim do túnel quando detectamos umas cabeças a mexer do lado de fora “era só o que faltava!! será a policia?” O Tiago e o Martim foram à frente sem as mochilas as costas (para correr mais depressa) e avisar se fosse preciso correr…….. “são escaladores, podem vir!!!” O doce som, que têm as coisas que esperamos ouvir teve neste caso um sabor especial, estávamos do outro lado e em vez de ter gasto 3horas tínhamos gasto 20min, o crime sempre compensa!!(ou melhor, neste caso compensou, a história podia muito bem ter sido outra). O dia estava prestes a terminar com um fantástico jantar que a Sara preparou para nós, uma garrafa de vinho e muita galhofa à mistura, coisa que se iria manter por toda a nossa viagem! Acho que adormecemos ao som de um “nóssa….tou todo quebrádo!!!” do Martim.

No dia seguinte, de novo, o grupo dividiu-se em 3. Para o Makinodromo foram, o Tiago, o Martim, o Miguel, o Vitor, a Ana e o Helder, juntando-se a um outro grupo de Portugueses que para lá iam, o Nuno (anestésico) o Dalai e outros que não sei o nome. Outro grupo foi exclusivamente para o Camino del Rey, e finalmente um terceiro grupo que seguiu para o sector, Escaleras Árabes, grupo com o qual me enquadrei. Devíamos ser uns sete carros, os dois que foram à frente e os restantes cinco que ao passarem pelos primeiros dois disseram……”quem é que estava ali a acenar???” ao que responderam “haaaaa…era um pastor”, como devem calcular, não era nada, eram os nossos companheiros a dizer pra virar naquela curva. Lá andamos nós perdidos naquela serra a procura dos outros e a pensar… “porque não esperaram eles por nós??” Depois de algum tempo a deambular por casas, becos sem saída e algumas inversões de marcha lá telefonamos para saber onde estavam todos…..”Haaaaaaaaaaaa  era o tal pastor lá atrás”. Depressa estávamos de mochila ás costas pelos trilhos que nos levariam ás escaleras árabes numa caminhada de 40min sempre a subir que põe qualquer sherpa com a língua de fora. Ao chegar, deu tempo de fazer duas vias, mesmo antes de começar a chover e ensopar as vias todas do sector….o dia parecia estar a terminar para nós e ainda só eram 12:00h… regressamos ao parque e ao chegar ao bungalow logo nos assombrou a ideia de passar a tarde ali sem fazer nada. “Vamos ter com eles ao Makinódromo” disse eu, alguém alinha?

Em breve eu e a Sara estávamos a caminho, e mais uma vez a opção Camino del rey\Túneis estava em cima da mesa, desta vez nem hesitámos, vamos pelos túneis!! Tudo tranquilo, nem policia nem comboios à passagem! Depois dos túneis uma subida que fazia a das escaleras árabes parecer uma brincadeira de crianças, foram praí 45min sempre a subir com os gémeos a arder.

A súbida para o Makinódromo... ao fundo um vislumbre do sector!

À chegada, o impressionante extraprumo que se abatia sobre nós!! Pela foto dá para ter uma ideia da dimensão do que estou a falar, mas só estando lá é que temos a verdadeira percepção da escala e grandeza deste sector.

Aqui o Tiago na lindíssima via Lourdes 8a

Ali logo ao lado ainda pudemos assistir a um encadeamento de um 7b+ pelo Dalai, que mostrou que está num excelente momento de forma, e um pouco mais acima o Helder e o Vitor debatiam-se com a via mais fácil do sector, um 6c de 30m lindíssimo que me ficou na cabeça para uma próxima ida ao chorro!

Vitor a apertar na churreira no início do 6c

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O sol começava a mostrar os seus últimos raios, o pouco calor que havia foi aos poucos desaparecendo e o vento frio tomando o seu lugar. Eu e a Sara fomos regressando enquanto o resto do pessoal ficava a desmontar as vias…. mais uma vez os túneis foram a nossa escolha, agora como se fosse natural, estava a tornar-se sem espaço para dúvidas o nosso trajecto de eleição! O fim do dia foi ainda coroado por um strogonoff de caril, “Celebrando o Afrobeat” e muito muito boa disposição!!!         “Nóoooossa tou todo quebrádo

O novo dia apareceu já com a missão de guiar o pessoal para as escaleras árabes, foi tudo muito mais fácil, porque já estávamos a contar com o caminho. Hoje deu para escalar mais a sério, fizemos uns Vs um 6a+, 6b, 6b+ tudo encadeado á vista. No final o Martim ainda foi desmontar um 6c+ que estava a dar que falar junto das escadas, o Tiago não encadeou um 7b+ à vista porque escorregou e as cabras da montanha passavam por nós como pequenos sharmas a destrepar mais rápido e mais ágeis do que algum de nós pode almejar.

Nuno Correia, e a vista das Escaleras Árabes

Como a maior parte do pessoal já tinha ido embora, e os poucos de nós que restavam não tinham carro, tínhamos ainda uma boa caminhada até ao parque. Depois de uma boa meia hora a andar, chegamos à estrada e eu descobri um pequeno trilho que talvez nos levasse direitos à vila, mas a certeza era escassa…”querem experimentar ir por ali?”.

Foi só falar e já estávamos no trilho a tentar descobrir a direcção da vila!  À medida que íamos avançando o trilho ia ficando menos óbvio e mais íngreme, o terreno solto deu direito a pelo menos quatro quedas protagonizadas principalmente por mim e pelo Vitor sendo que o Tiago já tinha mostrado ares da sua graça lá atrás ao tentar um 360º em corrida, que deu em aparatosa queda seguida de dor de barriga, não dele, mas dos que tiveram oportunidade de assitir e se desmancharam a rir!! O trilho terminava na estação de comboios, sentamos nas cadeiras de plástico que por ali estavam abandonadas, esperando que os restantes chegassem!! “minina…..vem logo descendo esse barranco daí

Depois do jantar fomos ter com o pessoal ao restaurante, cruzámo-nos com a impressionante “comitiva” de escaladores portugueses que se juntavam junto da fonte à hora de jantar, entre muitos que lá estavam, o Belchior, o Rosado, a Maria João, o Hugo e muitas outras caras nossas conhecidas, foi bom reencontra-los.

No último dia fomos presenteados com este cachorrinho que nos entrou para dentro do bungalow á procura de comida e brincadeira!

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Alguns de nós regressaram muito cedo para Lisboa e como tal não deu para escalar, mas deu para montar a slackline e brincar um pouco antes de ir embora!

Quanto a mim ainda fui fazer um 6a+ que usou até ao último centímetro da minha corda, de tão grande que era…. e basicamente ficou feito o dia… as horas de viagem de regresso cobravam demasiado para sair muito tarde do Chorro. O Chorro vai ficando connosco, gravado na nossa cabeça e corações como um sítio com vias de escalada que nos levaríam uma vida para descobrir a todas, uma dimensão que nos ultrapassa, nos faz sentir bem pequeninos e de uma beleza indescritível.

Até a próxima El Chorro

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